Políticas socioambientais, 'desenvolvimento' e vulnerabilidade: uma reflexão a partir de Itacoatiara

Impressão geral é a de que, desde meados de 2020, com o surto da Covid-19, não houve nenhuma ação beneficente em prol do meio ambiente na região


A expressão “Amazônia mítica” tem representado uma forma de falar sobre um lugar extenso em território, explorado a partir do que se pode transformar em valor para o capital ao longo do tempo e cheio de pessoas que tentam viver em meio a uma atualidade também extensa em desigualdade. Essa história é conhecida a partir do conceito de “desenvolvimento”, de onde se pretende partir. O recorte? A cidade de Itacoatiara, no Amazonas.


A cidade pertencente à mesorregião do Centro Amazonense e microrregião de mesmo nome, encontra-se a leste de Manaus, capital do estado, distando desta cerca de 176 quilômetros. O município possui uma temperatura média anual mínima de 25°C e de 34°C como média máxima.


Membros do Poder Legislativo do município, através da Câmara Municipal de Itacoatiara, decretaram a Lei nº 002, de 17 de março de 1999, que instituiu o Fundo Municipal para o Desenvolvimento Sustentável do Meio Ambiente, e deu outras providências.


A Lei cita que o fundo, teve o estrito objetivo de captar recursos e criar condições financeiras e de gerências de recursos destinados ao implemento do Plano Municipal de Desenvolvimento Rural e dos programas e projetos a ele pertinentes, segundo o que foi liberado pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável do Meio Ambiente.


Desenvolvimento para poucos

A partir de uma rápida exploração junto aos moradores da cidade, é possível dizer que a impressão geral é a de que, desde meados de 2020, com o surto da Covid-19, não houve nenhuma ação beneficente em prol do meio ambiente. As ações percebidas foram aquelas beneficiando a arborização da cidade, no sentido de podar as árvores e mostrar aos olhos do povo uma cidade bonita e arborizada.


Aquele “desenvolvimento” parece não ter chegado ao cotidiano de todos. Como afirma, Diane Nogueira, moradora do bairro Jardim Florestal, na periferia do município.


“Aqui próximo de casa, tem uma área bastante afetada, e quando chove fica ainda mais perigoso, até mesmo para os pedestres caírem nos buracos que danificam o nosso transporte e nos deixa em situação mais complicada”, relata.


"O que falta é uma melhoria na infraestrutura do nosso bairro, em questão de asfalto, para lama não ficar escorrendo pela rua, principalmente porque está chovendo muito esses tempos e não temos controle da natureza, temos que rezar para não ficar em situação vulnerável e não perder nossas coisas, já que os políticos que elegemos, nos esqueceram"

Em relação às políticas ambientais e a relação com o desenvolvimento humano e econômico, o jornalista Fabrício Ângelo, mestre em Ciência Ambiental e doutor em Comunicação, afirma que um pensamento nesse sentido mas vários são os fatores envolvidos na execução dessas frentes.


“A maioria dos planos diretores municipais preveem ações que conciliam o meio ambiente e o desenvolvimento socioeconômico, mas sempre o poder econômico é quem define quais as prioridades para nossos municípios, também não podemos esquecer da corrupção que desvia verbas a serem utilizadas na mitigação ou adaptação das cidades aos eventos que causam tantas calamidades na população, principalmente aos mais vulneráveis socialmente”, conclui.



Uma proposta de ação

Para Isvilaine Silva, ativista da organização ambiental Engajamundo, a questão pode estar intimamente conectada à ação política que nos compete enquanto cidadãos e votantes.


"O que podemos fazer é votar de forma muito consciente, verificando se o nosso escolhido possui pautas ambientais. Não adianta elegermos uma pessoa que não vai pautar essas questões dentro do congresso, dentro de prefeituras, onde quer que seja"

“Cada vez mais temos que associar o meio ambiente à política e eleger bons governadores, bons senadores, bons presidentes, que realmente estejam olhando não só para a preservação do meio ambiente, quanto das pessoas que vivem em prol dele, e também pela segurança das pessoas indígenas e quilombolas e todo ambientalista que está na linha de frente na proteção do meio ambiente há anos”, enfatiza.


Ela afirma ainda que, dentro das perspectivas da sua organização em relação ao futuro da humanidade e ao meio ambiente, as pessoas mais atingidas, que vêm sofrendo diretamente as consequências dos problemas socioambientais e climáticos devem ser ouvidas.


Ter esse espaço de fala/escuta, poder de votação e incidência, nesses ambientes de tomada de decisão é de extrema importância, para que suas vozes possam ser ouvidas e seja feito algo que realmente tenha efeito nessas realidades.


O sentimento geral é de otimismo em relação às discussões, também em Itacoatiara. Desde a última edição da COP 26, que mobilizou o mundo todo, chegaram apelos de pessoas de todos os lugares e assim, ativistas e organizações estão conseguindo trazer essa pauta mais a frente, levando a políticos interessados e gestores engajados.


Mais do que nunca é possível perceber que a conscientização de preservação e conservação do meio ambiente é uma pauta coletiva e que deve mobilizar a população como um todo, além de lutarmos para que haja mais políticas públicas que privilegiam pessoas que, hoje, se encontram em situação de vulnerabilidade, como em Itacoatiara, como na nossa região.


 

Este conteúdo foi produzido com apoio do programa Jornalismo e Território, da Énois Laboratório de Jornalismo. Para saber mais, acesse www.enoisconteudo.com.br ou @enoisconteudo nas redes sociais.


Equipe Énois

Formação: Danila de Jesus e Sanara Santos

Edição e mentoria: Camila Simões

Coordenação: Jessica Mota