Privações de moradia ‘roubam’ infância de crianças na ocupação Macapá, em Manaus

Relatos de residentes e especialistas apontam um panorama das relações entre infância e habitação


Ilustração: Luiza Souza

Chovia torrencialmente em Manaus. O que poderia ser apenas mais uma tarde normal durante o inverno amazônico. Mas o pequeno Davi Silva, de onze anos, sabia que não era. Ele mora com a mãe e um irmão na comunidade Macapá, uma ocupação na zona Centro-Oeste da capital amazonense. Por lá, toda gota que cai do céu deixa os moradores em alerta.

No dia da tempestade em questão, Davi estava na escola, que funciona em um prédio alugado pela prefeitura a quase dois quilômetros da ocupação. Ao chegar em casa, se deparou com o barraco completamente destelhado e a mãe tentando salvar alguns móveis do lugar alagado.


A cena pode parecer dramática, mas é corriqueira entre os moradores do Macapá, principalmente entre os meses de setembro e dezembro, quando as chuvas se intensificam. Na ocupação, ao menos quatro residências sofreram danos causados por tempestades só em 2020.


Na ocupação Macapá, crianças e adolescentes dividem com pais e responsáveis o medo do desalento. Maria Zenilda, mãe de Davi e líder comunitária, contou que a falta de estrutura rouba uma parte da infância de quem lá reside.


A dureza e a realidade desse desabafo são reforçadas pelos dados públicos. O relatório Bem-estar e privações múltiplas na infância e na adolescência no Brasil, do Unicef, estimou mais de 400 mil crianças e adolescentes vivendo com privações de moradia digna no Amazonas.


Para o cálculo, o estudo considerou famílias que vivem em residências com estruturas (teto e paredes) são construídas com materiais inadequados, como madeira aproveitada e palha.


De acordo com a psicóloga Luciana Cunha, a situação das crianças do Macapá se chama instabilidade ocupacional e tem relação com as incertezas de moradia.

“Afinal, a casa assume um papel central da construção das crianças. Lá é o porto seguro dessa criança, o lugar onde essa criança vai encontrar acolhimento e a segurança da família”, destaca.

Além da força da chuva, o poder público também representa um risco para os moradores do local. As irregularidades na ocupação levam a eventuais despejos, o maior medo de quem não tem residência fixa.


Mais uma vez, os dados revelam que esse não é um caso isolado. Estimativas da Fundação João Pinheiro dão conta de pelo menos 460 mil pessoas sem ter uma casa para chamar de sua em Manaus. O número coloca a capital como a líder em déficit habitacional no país.


Déficit atinge crianças

A realidade de Davi e tantas outras crianças da ocupação Macapá é de privação de direitos, analisa a assistente social Maria de Jesus, que mesmo aposentada desenvolve projetos de assistência e acolhimento no local.

“É um ciclo porque a falta de moradia leva à falta de saneamento, à falta de saúde, à falta de lazer e até mesmo o não acesso à educação. Tudo o que é tão fundamental nessa fase de formação e desenvolvimento do indivíduo”, pontua.

Andando pelos becos e vielas do Macapá, a assistente social conta que nos primeiros anos da ocupação, um dos principais problemas para as famílias era a falta de um endereço regular com CEP, pré-requisito para matrícula de crianças nas escolas da rede pública.


Com o tempo e a pressão dos moradores, a comunidade ganhou um código único para a formalização de um endereço.


Para Maria de Jesus, o déficit habitacional é a ponta do iceberg. “Não é só construir casas. Tem todo um ambiente em torno na moradia que envolve as crianças. Nesse caso, a casa é um ponto de acesso a outros direitos”, ressalta.


Ponto de fuga

Apesar de estar consolidada há mais de 20 anos, a comunidade Macapá recebeu poucas melhorias de infraestrutura. Ano passado, caminhões e trabalhadores da prefeitura chegaram ao local, mas apenas para construir uma quadra no local.


Além do espaço esportivo, a calçada foi reformada e ganhou uma academia ao ar livre e uma mesa para jogos de tabuleiro. As ruas dentro da comunidade, no entanto, continuaram como estavam antes das obras.


Maria de Jesus acredita que as crianças encontram na quadra um ponto de fuga de fuga da realidade a qual são submetidos. “Se você ver bem, a quadra está sempre ocupada. Mesmo quem não tá jogando bola, está lá. Porque é o ponto de extravasar tudo aquilo que eles querem liberar”, analisa.


É na quadra que o pequeno Davi Silva passa boa parte do horário livre que tem. Em tom de brincadeira, o menino diz que não tem outro lugar para ir. Sem quintais, ruas asfaltadas ou casas bem estruturadas, Davi tem razão.


No Macapá, a reunião de crianças para um simples jogo de futebol pode ser um retrato do déficit habitacional na capital amazonense.

Essa reportagem foi produzida com o apoio da Énois Laboratório de Jornalismo, por meio do projeto Jornalismo e Território