Quando a cepa ganha um gentílico


Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Com o colapso na saúde, Manaus entrou mais uma vez no radar de grandes veículos de imprensa. Na tentativa de entender o que está por trás da crise de falta de leitos e oxigênio, uma nova variante do coronavírus, identificada no início de janeiro na capital, ganhou destaque nas reportagens, análises e comentários.


A nova cepa, nomeada como B.1.1.28.1 ou P.1, não é o único motivo para a crise sanitária. Tampouco a variante P.1 é restrita ao Amazonas. Mesmo assim, alguns veículos começaram a usar a expressão "variante amazonense". Outros, chegaram a falar que a nova cepa foi "produzida" em Manaus.


Essas afirmações são injustas e pesam ainda mais o julgo que a capital carrega, já duplamente castigada pelo próprio vírus. A cepa não surgiu do nada. Antes de tudo, é fruto de uma política nacional, fomentada pelo próprio governo federal, de desinformação em relação à pandemia, descrédito de medidas sanitárias e insistência em um tratamento sem efeito comprovado.


O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, por exemplo, atribui a nova variante à gestão irresponsável da pandemia no estado. Perguntei dele se é correto falar em "variante amazonense". A resposta foi um taxativo não.


Anteriormente, o uso do termo "vírus chinês" colocou o Brasil numa crise diplomática. Por óbvio, os vírus não têm certidão de nascimento, cpf e muito menos passaporte. Insistir em uma narrativa que atribui as mutações biológicas - que são processos naturais - a uma região ou a um povo nos remete a uma lógica colonialista. E o jornalismo não se pode deixar levar por essa lógica.


A análise do discurso nos lembra de olhar também para o enunciador, ou seja aquele que propaga o discurso. Assim, não surpreende notar que os jornalistas por trás dessa narrativa concentram-se na região Sudeste. Exemplos não faltam do desconhecimento de veículos do eixo Rio-São Paulo sobre a região amazônica. Nosso apagamento é histórico e nossas manchetes remetem sempre ao exótico e aos desastres.


Ouvido pelo jornalista Waldick Júnior, o linguista Sérgio Freire pontuou que a "variante do Amazonas" pode gerar um estigma social sob o estado. Mais um entre tantos já massificados.


Não se pode perder de vista o importante papel da imprensa, como filtro social das notícias. A credibilidade conferida a esses veículos não os permite errar na escolha das palavras. Por si só, o descaso em ponderar o peso de uma expressão mal formulada é sintomático.


Ao jornalismo não cabe o uso de eufemismos. A "variante amazonense" não é um erro, não é imprecisão e muito menos uma falácia. É xenofobia. Transmutada de cientificidade, mas, ainda assim, xenofobia.