Abaré: uma chama de esperança no jornalismo manauara

A Abaré-Escola de Jornalismo completa um ano de fundação com entusiasmo e esperança


Quando a Abaré começou a ser projetada, em setembro de 2019, o objetivo inicial era criar um espaço de ensino e de crítica da mídia amazonense. Nessa época, jornalistas que fundaram a escola estavam terminando seus trabalhos de conclusão de curso, mas já sentindo falta da universidade.


A pessoa que deu o primeiro passo foi a jornalista Jullie Pereira. Ela queria fazer algo para continuar o trabalho que desenvolveu na faculdade, mas precisava ser algo que outras pessoas quisessem fazer tanto quanto ela. Sua amiga, Alessandra Taveira, também jornalista, inspirou a sugestão da escola.


Alessandra está envolvida com a pauta da educação desde criança. Sua mãe terminou a graduação de pedagogia aos 50 anos e se tornou referência para a filha, que tem, até hoje, o sonho de ser professora.


Pensando nisso, Jullie convidou Alessandra, que imediatamente aceitou. Depois, as duas convidaram Gabriel Veras e Ariel Bentes, que também disseram sim. As reuniões de planejamento começaram em outubro de 2019 e a ideia era lançar a escola em março de 2020.


Linha editorial, formato, público alvo, missão, valores: tudo foi definido em conjunto. A maior proposta era levar educação midiática e o ensino da prática jornalística para jovens da periferia de Manaus e pessoas mais velhas, com idade acima dos 40 anos.


Na época, também foram planejadas oficinas, palestras e rodas de conversas para estudantes de jornalismo e profissionais da imprensa. Então existiam duas frentes: atividades voltadas para grupos vulneráveis e atividades para jornalistas.


Dentre todas as conversas, a escolha do nome gerou muitos debates. Por fim, “Abaré” foi a opção mais votada. A palavra significa “amigo” no dialeto arawak e retrata o espírito de companheirismo, afeto e empatia. Mais do que isso, expressa o tipo de jornalismo que a sociedade anseia, um jornalismo que olha o outro com carinho, que reconhece seus contextos e faz recortes. Um jornalismo de afeto e partilha.


Um ano de mudanças e adaptações

Para o lançamento, foi projetado um evento presencial em que jornalistas fariam um debate sobre o cenário local. No dia 13 de março, porém, o primeiro caso de coronavírus foi confirmado em Manaus. A pandemia afetou todo o planejamento anual da escola, atividades e formatos.


Um pouco antes, a jornalista Ariel Bentes se retirou desse planejamento, por conflitos pessoais, mas continuou apoiando o trabalho da escola. Com o grupo reduzido a três pessoas, demorou um tempo para a equipe assimilar que o contexto mudou completamente e pensar nas adaptações das atividades.


Assim, no dia 7 de abril, data que marca o Dia do Jornalista, a escola foi lançada virtualmente, por meio das redes sociais. De início, foram feitas duas lives: ‘Covid-19 no AM: Como fazer jornalismo em meio à pandemia?’ e ‘Cobertura política em meio à pandemia’. Nelas, jornalistas que atuam em Manaus contaram suas experiências e o impacto da pandemia nas produções.


Depois disso, os formatos foram mudando. Houve oficina virtual, propostas de conteúdos que hoje estão paradas, mudanças de cores, design. Nada disso assustou. O experimentalismo é um dos pilares da Abaré. Não ter medo de ousar, de tentar, de reconhecer que não deu certo, de tentar novamente em outro formato não assusta. Pelo contrário, estimula a criatividade.


Esses formatos foram se desenhando após a chegada de duas pessoas: Ariel Bentes e Nicole Baracho. Ambas contribuíram com suas perspectivas, o que resultou fortemente no trabalho desenvolvido pela escola hoje.


Recentemente, o jornalista Klauson Dutra também se integrou à equipe. Ele está se dedicando, dando sugestões e dividindo seu conhecimento.


Além dele, a jornalista maranhense Ana Reis Mendes, é colaboradora fixa da newsletter Tipiti, que quinzenalmente faz curadoria de notícias socioambientais da região Norte.


O que motiva a existência

A Abaré surgiu de um anseio pelo debate do jornalismo em Manaus. Concentrar atividades sobre a profissão em salas de aulas, dentro de universidades e grupos de pesquisas não é o suficiente. É necessário expandir o conhecimento do que é a mídia e do que é informação.


É necessário que vizinhos, tias, avós, adolescentes e jovens saibam o que é uma notícia, o que é um fato, o que pode ser uma mentira. Sair da bolha em que professores, intelectuais e até mesmo alguns jornalistas estão é o que a Abaré se propõe. Educar sempre foi a melhor forma de fazer essa mudança.


Estes jovens recém-formados acreditam nisso. Que é possível mudar. Há um discurso difundido há décadas nas redações, de que jovens jornalistas têm pouco a ensinar e muito mais a aprender. E os chefes começam a enquadrar, a estabelecer como tudo deve ser feito. A ideia é obedecer sem questionamentos.


O espírito da Abaré é outro. Há de se discutir tudo. Nenhuma sugestão deve ser invalidada. Os processos são importantes para um bom resultado. Tudo isso faz parte dessa inquietação própria da juventude. Na Abaré, essa inquietação é admirada, fortalecida, impulsionada. Jamais reprimida.


O protagonismo jovem dentro de pautas relevantes para o debate se une à necessidade do protagonismo regional. As narrativas sobre o que é Manaus, o Amazonas, a região Norte, a Amazônia, são, muitas vezes, equivocadas ou inexistentes. A sensação é de que a vida nessa parte do país pouco importa aos governantes, à imprensa.


Essa imprensa que ilusoriamente se diz “nacional”, mas que dedica sua produção ao eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília e só aceita pautas do Norte se for para expor o que de pior existe, acaba criando um imaginário social em que a população nortista se encontra sempre no papel de miserável, ignorante e distante.


A Abaré, por si só e pela sua existência, traz uma contranarrativa. Sim, existe jornalismo no Amazonas. Sim, essa história pode ser feita e pode ser contada por quem ocupa este território. Sim, é possível fazer do jornalismo uma ferramenta de mudança.