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Educação mediada por telas é o projeto de ensino para ribeirinhos e indígenas no Amazonas

Ensino mediado por tecnologia coloca estudantes sentados em uma sala olhando para televisão; análise de dados da Abaré mostra que o estado tem 424 escolas paralisadas na zona rural 

Amazonas tem 62 municípios e áreas ribeirinhas e indígenas com escolas. Foto: Rafael Ramos/Arquivo pessoal
Amazonas tem 62 municípios e áreas ribeirinhas e indígenas com escolas. Foto: Rafael Ramos/Arquivo pessoal

Uma turma de estudantes ribeirinhos e indígenas chega à escola, entra na sala, senta-se nas carteiras e se prepara para olhar uma televisão a manhã inteira. Não há professor, mas um mediador que vai ligar a tela, ajustar o som e fazer a chamada. Esse é o modelo de educação do campo, implementado no estado do Amazonas desde 2007.

Naquele ano, o governo estadual criou o Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam), localizado na capital Manaus, onde os professores gravam as aulas das disciplinas, em estúdios fechados, que depois são transmitidas via satélite e internet para os 62 municípios do estado.

Essas aulas, em que os alunos não tem uma interação direta com os professores, também não consideram as especificidades amazônicas, como as línguas indígenas. O modelo é chamado de "ensino mediado por tecnologia" e é destinado ao Ensino Fundamental 2, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA), da rede estadual de ensino.

O estado usa como base a Lei Estadual nº 3.642/11, que define as funções do Cemeam. A responsabilidade do centro é efetivar o modelo. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) também permite diferentes formas do uso de tecnologias na educação.

Edilani Oliveira, doutoranda em letras, da Universidade Federal do Pará (UFPA), começou seus estudos sobre o ensino mediado por tecnologia em 2016, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), passando pelo tema na graduação, no mestrado e agora no doutorado. Para ela, o estado está entregando certificados e não formando cidadãos com pensamento crítico.

"O ensino mediado tem sucesso no sentido de alcançar diversos alunos em diversas comunidades, mas, por outro lado, ele não contempla a diversidade sociolinguística, a diversidade sociocultural; é uma aprendizagem que não é significativa", explica a pesquisadora.

Currículo que ignora os sujeitos

A reportagem assistiu às aulas publicadas pelo Cemeam em seu site institucional. Os professores aparecem em um fundo artificial, feito para simular uma imagem, intercalado pela projeção de um slide da aula. Em algumas situações, os educadores exibem, no mesmo vídeo, um outro vídeo de aulas ilustrativas. São telas dentro de telas.

Nas salas de aula, cada escola tem um professor mediador. Esse professor não participa, nem tira dúvidas. Quando os alunos têm alguma pergunta, há um momento de 10 minutos ao final para falar com os educadores que estão em Manaus. O formato é fechado, não é possível mudar.

"Eles têm a aula toda planejada, tudo realizado em Manaus, nos estúdios, e as escolas recebem isso. Então, as escolas são receptáculos do Cemeam", diz Edilani.

Captura de tela de aula sobre efeito estufa, gravada por professores do Cemeam. Foto: Reprodução/Cemeam
Captura de tela de aula sobre efeito estufa, gravada por professores do Cemeam. Foto: Reprodução/Cemeam

O geógrafo Rildo Pantoja, professor em escolas ribeirinhas na região do Tarumã, em Manaus, explica que o conceito de educação no campo deve ser construído considerando o sujeito e suas vivências, o que não é o que ocorre no ensino mediado.

"Grande parte do material que está disponível para a gente trabalhar em sala de aula não dialoga com essa realidade, com o modo de vida, com o nível de organização cultural e econômica. A educação do campo existe quando esse projeto político-pedagógico tem como ponto de referência a realidade social", explica Pantoja.

No caso da interação com as línguas indígenas, também chama a atenção o fato de o Cemeam não fazer essa inclusão. O direito ao ensino em língua materna é um dos pilares da política de educação escolar indígena prevista no decreto nº 6.861/2009. Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, o Amazonas é o estado com a maior população indígena do Brasil. São 490.854 pessoas indígenas, que falam 168 línguas diferentes.

"A educação do campo surge com os movimentos sociais do campo, com os quilombolas, os ribeirinhos, os assentados, os extrativistas. Então, ela está indissociável do sujeito amazônida, de suas línguas e culturas", diz Pantoja.

Escolas paralisadas e fechadas

Enquanto o modelo de ensino mediado se consolida no Amazonas, outra situação se desenvolve: o aumento de escolas paralisadas em zonas rurais. A Abaré analisou os dados do Censo Escolar de 2025 e observou que há 424 escolas paralisadas no estado, em áreas ocupadas por povos ribeirinhos e indígenas. Isso é 437% a mais do que as escolas paralisadas em zonas urbanas, que registraram 79 casos.

Uma escola é considerada paralisada quando suas atividades escolares estão suspensas. Ou seja, ela não está funcionando, mas também não foi encerrada de forma definitiva.

O Amazonas está em segundo lugar em número de escolas paralisadas entre os estados da região Norte, considerando as estaduais e municipais. Só perde o topo da lista para o Pará, que tem 930 escolas rurais nessa situação.

Os dados de escolas fechadas também expõem a diferença. O Amazonas teve 36 escolas fechadas na zona rural e 3 na zona urbana. Na prática, isso significa que os estudantes que vivem mais próximos do campo, das águas e das florestas têm suas escolas fechadas e recebem, em troca, uma política educacional baseada em telas.

O professor Everaldo Malta de Lima Filho trabalhou por cinco anos na Escola Municipal São Roque, na comunidade ribeirinha Carapanatuba, localizada às margens do rio Madeira, no município de Humaitá, no sul do Amazonas. Ele estava realizando o sonho de dar aulas no mesmo local em que nasceu.

Estúdio do Cemeam, em Manaus, onde os professores gravam suas aulas. Foto: Euzivaldo Queiroz/Seduc-AM
Estúdio do Cemeam, em Manaus, onde os professores gravam suas aulas. Foto: Euzivaldo Queiroz/Seduc-AM

As aulas eram ministradas em um prédio improvisado. A estrutura era tão precária que pais e professores decidiram não frequentar o local. Começaram a exigir a construção de uma escola. Everaldo conta que, naquele momento, a prefeitura informou que não tinha como pagar um prédio novo e transferiu os alunos para uma escola em outra comunidade.

Com isso, o deslocamento das crianças aumentou. O que antes eram 15 minutos de rabeta* virou uma viagem de 1h. Além disso, os pais estão mais preocupados. "As crianças saem 5 horas da manhã e chegam ao meio-dia; só dá tempo de jogar o materialzinho em cima da mesa e já ir dormir de cansaço", conta Everaldo.

A nova escola também passou a sofrer sobrecarga com a quantidade de alunos, o que mudou a rotina de todos os profissionais. "Nós estamos providenciando um abaixo-assinado, com a assinatura de todos os pais, e vamos entrar em contato com o Ministério Público e com a Defensoria Pública, para ver se eles têm um parecer favorável para que essa escola saia o mais rápido possível", conta Everaldo.

O caso da Escola São Roque foi denunciado em nota pública do Fórum Nacional de Educação no Campo (Fonec), que publicou um levantamento e um manifesto contra o fechamento das escolas do campo no Brasil, em janeiro deste ano.

"Ao negar o direito de acesso à escola pública no território em que se vive, milhares de famílias ficam expostas ao abandono institucional e aprofundam desigualdades históricas. O fechamento de escolas do campo não é um fenômeno isolado ou casual. Trata-se de uma estratégia política intencional, que viola os princípios constitucionais da gestão democrática do ensino público e se impõe sem qualquer processo efetivo de escuta ou diálogo com as comunidades afetadas", afirmam, na nota.

Segundo a entidade, apenas em 2024, mais de 1,5 mil escolas rurais foram extintas e outras 18,2 mil se encontravam paralisadas em todo o país. A nota denuncia, ainda, que este processo se dá a partir da edição de portarias internas que estabelecem um número mínimo de estudantes por turma e de um discurso de modernização do sistema educacional.

Os dados corroboram a leitura de Edilani Oliveira. Segundo a pesquisadora, todo o recurso investido nesse modelo não vai para as salas de aula das escolas no interior do estado, mas é destinado ao centro de mídias na capital.

"Quando você vai para a escola dentro das aldeias, dentro da comunidade, você vê que o resultado é diferente, porque não há investimento. O Cemeam não investe na educação na sala de aula. O Cemeam investe no estúdio de Manaus. Então, o Cemeam tem um estúdio de altíssima tecnologia na cidade. Mas você vai para a escola no interior, e a maioria delas não tem nem ventilador", conta.

Investimento do campo para a capital

Esses estúdios com câmeras, luzes e editores têm um custo. O último contrato firmado pela Secretaria de Educação (Seduc) para fornecer os serviços do Cemeam foi com a VAT Tecnologia da Informação S.A., assinado em 2020, com vigência de 12 meses. O valor para esse período foi de R$ 29,8 milhões.

Até agora, o contrato sofreu seis aditivos, sendo renovado ano a ano, e agora está com vigência até 2027. Considerando todo esse percurso, o valor que a VAT recebeu chega a R$ 210 milhões. Da primeira assinatura, em 2021, até a última, em 2026, o aumento no valor pago anualmente pelo governo à empresa foi de 22%, com R$ 6 milhões a mais.

A VAT tem como sócio adminnistrador o empresário Francisco Cirilo Anunciação Neto, filho de Cassiano Cirilo Anunciação Neto, que foi fundador da Rede Diário de Comunicação, um dos maiores conglomerados de mídia do estado, com espaço na mídia impressa, televisiva, digital e na radiodifusão.

No ano passado, Neto foi um dos alvos da operação "Dente de Marfim", da Polícia Federal, que investiga casos de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica em contratos firmados com a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp), na época em que Neto ainda era sócio da empresa "Mamute Conservação". O caso foi amplamente noticiado por veículos locais.

O cenário reportado pelos pesquisadores, movimentos sociais e pelos dados públicos reforçam um movimento de preterição da educação no campo em detrimento de um modelo digital, plataformizado, em contratos milionários, poucos transparentes e sem consulta às comunidades e aos estudantes, que são justamente os mais afetados por essas mudanças. 

* Embarcação pequena movida por um motor com eixo longo e hélice externa, muito usada nos rios da Amazônia para transporte de pessoas e cargas. 


 
 
 

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