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Por que financiar o jornalismo feito por amazônidas?

Há um tempo, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, cantores, escritores, professores, cientistas universitários e empreendedores alertam para um erro na lógica sobre como a história da Amazônia é contada. Não somos nós, cidadãos amazônidas, que estamos narrando os fatos. 


O jornalismo têm uma função, muitas vezes antropológica, de se embrenhar em casas, histórias de famílias, nos mais diversos territórios. Uma reflexão importante é pensar: até que ponto centralizar essas histórias nas mãos de outros contribui para o apagamento de quem é o sujeito da narrativa? 


Nós, jornalistas amazônidas, pensamos nisso com certa constância. Nos últimos anos, houve um aumento de organizações de comunicação, comandada por amazônidas, que fazem cobertura na região. No Amazonas, surge a Abaré e a Rede Wayuri; no Pará, a Carta Amazônia e o Tapajós de Fato; no Acre, O Varadouro; no Maranhão, a Agência Tambor e a TV Quilombo.


Essas organizações engatinham na tentativa de construir um caminho sólido financeiramente e administrativamente. Além da produção de conteúdo jornalístico, também enxergam a educação midiática com papel central para a integridade da informação. Para a Abaré, um ecossistema informacional justo e igualitário depende de uma comunicação centrada nos territórios. 


Ao mesmo tempo, organizações de jornalismo e comunicação do sudeste passaram a captar recursos para aplicar formações voltadas aos jornalistas da região. São investimentos para ensinar, ensinar e ensinar.


Quando contratados, as organizações e jornalistas locais são colocados à nível de estágio, com remunerações menores ou para projetos sem destaque. 


Um relatório do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ), publicado em março do ano passado, mostrou que nos últimos dois anos, as dez principais fundações que investiram no jornalismo direcionaram mais de 16 milhões de dólares para apenas 81 organizações no Brasil e 79% estão concentradas no sudeste. Apenas 5% são do Norte. 


No momento, ainda não se veem os veículos da Amazônia, comandados por amazônidas, ganhando espaço para financiar grandes projetos de jornalismo. Isso também não é uma questão para os financiadores. Estão mais preocupados com as execuções, os prazos, a quantidade de compartilhamentos. Diversidade, escuta e valorização dos profissionais da Amazônia não é uma discussão agradável. 


Nos congressos, nas mesas de bar, nas redações, essa bandeira é vista como quase ofensiva. Mas, é notável como ela reflete uma luta conjunta de pessoas amazônidas em todas as frentes. Todos estão em busca de mostrar porque é relevante escutar, contratar e aprender com as vozes locais. 


Os jornalistas estão nessa luta, mas ainda tímidos. Falta uma campanha maior, uma coalizão desses atores para discutir, celebrar, pesquisar e conscientizar sobre o que é a comunicação feita nestes territórios. E esse protagonismo precisa partir de dentro. Ou estaremos reproduzindo a lógica colonial sem escutar nossas próprias vozes. 


Mas por que isso é importante? Onde está o jornalismo, também está o exercício democrático. Quando falamos de sustentabilidade para veículos amazônicos, estamos falando sobre a manutenção da democracia e do debate social crítico. 


Em um país cuja nação é atropelada pelas big techs, pela desinformação e celeridade no consumo de notícias, criar uma rede de jornalistas independentes em zonas vulneráveis é uma forma de reestruturar o espaço informacional. 


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