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Que ninguém diga que não nos viu: um gesto de imaginar outros futuros para vidas lésbicas em Manaus

29 de ago.
5 min de leitura
Foto: Paula Rodrigues/Ponte Jornalismo
Foto: Paula Rodrigues/Ponte Jornalismo

Duas de nós sentadas nos bancos de pedra perto do Teatro Amazonas. Três de nós batendo leques no techno do centro. Uma de nós encontrando outra num bar da Itaúba, lá na ZL. Outra de nós conhecendo uma sogra no almoço de domingo. Duas de nós indo pelo casarão pela primeira vez rir do filme estrangeiro que passa na quarta. Brindes de todas nós naquele outro bar, onde a gente marca de ir toda sexta-feira depois do trabalho. Onde o medo de dar as mãos fica um pouco menor. Onde a coragem de trocarmos carinho chega a ser possível. O único espaço que nem eu, nem você, temos que estar em alerta. Sem a dor de receber os olhares. De sermos aquelas bem ali.

Mas, acabamos sendo, para muitas pessoas de uma cidade que ainda é muito provinciana, como diz minha mãe. Ainda sofremos os olhares, vivemos do quase, criamos nossos espaços para amar, nos divertir, rir e brindar. Mas e depois da noite? É preciso inventar um depois. Porque a estratégia para que nossa vida não seja costurada ao medo é o rasgo, a comunidade, a rede. Tudo que construímos juntas para que não sejamos esquecidas, num Amazonas de violências tão profundas que até as estatísticas esquecem de nós.

Mas a recusa em nos conhecer não pode ser a última palavra sobre nós. Então, minha alternativa é fabular, encontrando no possível o que o real não guardou e devolvendo as que já se foram sem deixar rastro, as que existem agora sem serem vistas ao menos o direito de serem contadas inteiras.

Pergunte a qualquer uma delas do que tem medo e a lista vem rápida: da mão que aperta forte demais na saída do bar, do primo que descobriu, do patrão que "não tem preconceito, mas", da ginecologista que não se aprofunda nas questões do nosso corpo, da denúncia que vira piada no plantão da delegacia. Medo do corpo, medo da rua, medo do Estado que deveria nos proteger e que, quando não agride, fecha os olhos. Tudo isso é real e nenhuma delas precisa de mim para saber, mas há um medo mais fundo, que é o de passar pela vida inteira sem deixar rastro. O de amar, envelhecer, morrer e não constar em lugar nenhum. Nenhuma foto na parede da sala, nenhuma certidão que diga a verdade, tampouco uma lápide.

A memória, no fundo, também é uma questão de território. Já que para lembrar de alguém é preciso que essa pessoa tenha tido onde existir, isto é, um espaço no mundo, um espaço no tempo, arquivos e nas conversas. E às vidas lésbicas se nega o território nas três frentes ao mesmo tempo: negam o corpo, que não pode se expressar com sua forma de existir no mundo; negam o espaço, que não as acolhe, as expulsa de casa, ou até finge que não vê; negam o registro, que não as escreve. É esse o mais cruel dos apagamentos, como se o nosso corpo nunca tivesse existido.

O primeiro, e por muito tempo único, esforço de medir o assassinato de lésbicas no país foi um dossiê feito por pesquisadoras que tiveram de garimpar notícia por notícia em jornais e redes sociais, justamente porque o Estado brasileiro não produz esse número. Isto é, em nenhum boletim de segurança pública, uma categoria chamada lesbocídio, nem lei que a tipifique. Aliás, o silêncio tem uma geografia própria aqui. Como a doutora Michele Pires Lima coloca em sua tese sobre as trajetórias de mulheres lésbicas negras e afro-indígenas em Manaus, "a invisibilidade se afunila com a ausência de dados". Foi só em 2010 que o IBGE passou a contar casais do mesmo sexo, e olhe lá, apenas dois homens ou duas mulheres cisgêneras dividindo um teto, deixando a identidade de gênero de fora do Censo até 2024.

Antes disso, oficialmente, é como se pessoas LGBTQIA+ não existissem; agora existem pela metade. Quando o número enfim aparece, ainda é menor do que a realidade, visto que o levantamento mais recente de mortes LGBTQIA+ no país contou onze lésbicas num ano e esse número não é um sinal de segurança, é a medida exata do que não se notifica, do que a família disfarça na certidão, do que a delegacia arquiva como briga de mulher. E o pouco que se conta ainda se distribui de forma torta, porque a suposta neutralidade do dado esconde quem morre: as mais expostas como mulheres negras, indígenas e trans são também as menos contadas, envolvendo um duplo apagamento, cotidiana e estatisticamente. É um arquivo da destruição que, até hoje, ainda é o único que o Estado se dispõe a manter.

Mas é importante relembrar que o apagamento não começa apenas no arquivo, porque muito antes de o Estado se recusar a enxergar uma mulher lésbica, alguém já tentou impedir que ela existisse e essa tentativa começa no nosso corpo. Antes de a lei chegar, chega a voz da família falando da roupa. Chega o por que você ainda não nos apresentou um namorado? e o assim nenhum homem vai te querer. A primeira fronteira que se levanta contra as lesbianidades é a da própria casa, e ela se levanta sobre o corpo, em que o cabelo que não pode ser muito curto ou muito longo, o jeito de andar que precisa corrigir, a pinta que não pode dar. Por isso, nós reafirmamos que o corpo é o nosso primeiro território, é aqui que começa a disputa.

E neste compasso de observar as cartografias da lesbianidade manauara, até o direito de passar despercebida tem endereço, tem cor e tem preço. E há toda a cidade em volta, que é a maior parte dela, onde o cálculo recomeça no instante em que se sai desses metros: dar ou não a mão no ônibus, o que vestir para ir à padaria da esquina, como responder à vizinha que quer saber por que duas mulheres dividem o mesmo quarto há tanto tempo. A liberdade, aqui, é medida em quarteirões e não é distribuída por igual. Então, esta lógica, para a mulher negra, para a pobre ou para quem veio do interior e foi parar na periferia da capital, prometeu uma proteção que nunca é concedida, porque nós seguimos invisíveis em um espaço que lhes deveria ser seguro e acolhedor.

Mas quem é expulsa de todo lugar aprende a construir o próprio. É isso que essas mulheres vêm fazendo em Manaus há décadas, com a Associação Amazonense de Mulheres Independentes pela Livre Expressão Sexual (AAMILES), o Movimento de Mulheres Negras da Floresta - Dandara, o Espaço Feminista Urí-Hí, a Confraria LGBT, a ASSOTRAM, o Coletivo Miriã Mahsã, Casa Miga e muitos outros. Cada um deles é uma corrente contra o esquecimento, entre reuniões que se transformam em atas, uma foto de encontro que alguém guardou e, principalmente, um nome de mulher que passou a constar em algum lugar que não fosse o boletim de ocorrência. Soma-se a isso a rede de apoio, que vem de uma comadre que acolhe, a companheira que ajuda a criar a filha da outra, a casa que vira ponto de quem não tem para onde ir.

Retomando a tese de Michele Pires Lima, a autora chama isso de “maternagem”, o que se traduz no cuidado como prática política, ou seja, a família que se escolhe quando a de sangue falha. Rir alto, brindar na sexta, passar uma tarde de ócio à beira do rio… são formas de construir um novo futuro para além das nossas cicatrizes. Para quem foi ensinada que nem devia existir, permanecer viva e ainda assim em festa é a forma mais concreta de resistir ao apagamento.

Este texto é mais um gesto nessa corrente. Imaginar e escrever o que não nos deixaram registrar é o primeiro passo de quem pretende continuar. A memória, no fim, é construída a partir de estratégias que garantam que nossa existência será lembrada amanhã. Assim, seguiremos, orgulhosamente, lésbicas.

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