Um grito pelo direito à comunicação em azul e vermelho
- Abaré Jornalismo

- 26 de jun.
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É como se, por alguns dias, o tempo parasse e os olhos de todas e todos os amazonenses se voltassem para o que ocorre na pequena ilha onde fica a cidade de Parintins, já na fronteira com o estado do Pará. É lá onde, no último final de semana de junho, se enfrentam os bois-bumbás Caprichoso (azul e branco) e Garantido (vermelho e branco), na festa que já ficou conhecida mundialmente.
É no Bumbódromo, uma arena no formato de uma cabeça de boi, onde a magia acontece. Por lá, alegorias, danças e toadas apresentam ao público uma outra história, até então silenciada, dos povos da Amazônia. Foi na arena que a Baixa da Xanda, bairro tradicional do Garantido, se reafirmou território quilombola. Foi lá também que o Caprichoso “desdemonizou” Yurupari, divindade dos povos do Alto Rio Negro.
Na arena, não disputam apenas duas agremiações. O Bumbódromo também é palco de uma disputa de sentidos, onde identidades são afirmadas, memórias são recriadas, posicionamentos políticos são enunciados, onde as mais diversas camadas populares exercem o direito humano à comunicação, ainda negado em sua plenitude a milhões de brasileiras e brasileiros.
No Amazonas, esse cenário se manifesta de forma particularmente aguda: desertos de notícias, concentração midiática em poucos grupos econômicos, invisibilização de territórios e o silenciamento sistemático de vozes comunitárias e tradicionais Esse quadro compromete a visibilidade de violências, conflitos ambientais e questões sociais que afetam diretamente a população local.
Neste vazio informacional, Parintins funciona como uma espécie de antídoto, que sustenta a produção de conteúdos significativos. Em um contexto de intensificação da crise climática e de avanço de interesses econômicos predatórios sobre a Amazônia, o festival se coloca como um espaço privilegiado de construção do bem-viver ao tematizar o respeito à terra, à floresta, às águas, aos seres a partir das cosmovisões de povos indígenas e dos saberes ancestrais. O que os bois produzem é, na verdade, uma pedagogia pública que dialoga diretamente com a população.
Ao contrário dos sistemas midiáticos concentrados, que operam sob lógicas comerciais e frequentemente excluem perspectivas periféricas, no festival de Parintins o protagonismo é de lideranças dos territórios e defensores de direitos humanos em harmonia com artistas, músicos, costureiras, artesãos, coreógrafos, pesquisadores e comunidades inteiras que participam ativamente da criação dos espetáculos.
Essa dimensão participativa é fundamental para compreender a cultura popular como um mecanismo de consolidação do direito à comunicação. O festival de Parintins nos aponta para outras comunicações possíveis e nos mostra que sujeitos historicamente marginalizados ecoam suas próprias vozes e querem (e devem!) ser ouvidos, indo além de uma representação já conhecida da Amazônia.
Longe dos estereótipos, o que se vê em Parintins é uma Amazônia viva, complexa e politicamente engajada. É um lembrete de que é potente e urgente que a própria Amazônia se narre. Talvez as respostas que buscamos não estejam apenas nos grandes centros urbanos ou nas tecnologias mais avançadas. Talvez estejam sim nas práticas culturais que, há décadas, vêm produzindo sentidos, formando consciências e fortalecendo identidades, em espaços onde a comunicação se faz de forma coletiva, plural e conectada às realidades locais.
Na ausência de sistemas midiáticos democráticos, os bois de Parintins evidenciam que a cultura pode (e deve!) ocupar esse lugar e, de preferência, nas cores azul e vermelho.




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