Dificuldade no atendimento de saúde pode prejudicar primeira infância no conjunto Amazonino Mendes 2

Durante o pico da pandemia, a UBS que atende o conjunto ficou fechada por três meses e moradores relatam dificuldades no atendimento

Foto: Ariel Bentes

A capital do Amazonas, Manaus, tem uma população estimada em mais de 2 milhões de pessoas, sendo 200 mil delas crianças com idade entre zero e seis anos, representando quase 12% da população. Os dados são do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e compilados na plataforma Primeira Infância, do Instituto Maria Cecília Vidigal.


Segundo o Instituto, o período do nascimento até os seus 6 anos de idade é conhecido como primeira infância, fase primordial no desenvolvimento das crianças, onde as experiências vividas nesta etapa são levadas para o resto da vida. Os dois filhos mais novos de Kelly Pinheiro, com 5 anos e 1 ano e 10 meses de idade, estão vivendo esta fase em meio a pandemia do novo coronavírus e enfrentando dificuldades para manter o acompanhamento médico, essencial para a saúde das crianças.


Moradores do conjunto Amazonino Mendes 2, localizado no bairro Novo Aleixo na zona leste de Manaus, Kelly e seus filhos são atendidos pela Unidade Básica de Saúde (UBS) N37, também chamada pelos moradores de Casinha. Porém, durante o pico da pandemia na cidade a mesma ficou fechada durante 3 meses e, de acordo com Kelly, a unidade já foi reaberta mas os serviços de saúde não foram restabelecidos totalmente.


Kelly, que fez o pré-natal dos seus três filhos na UBS N37, conta que no período em que a unidade estava fechada ela procurou atendimento na UBS Maria de Fátima Andrade, situada no bairro conhecido como Multirão, famoso pelo seu comércio na zona leste da cidade.

“Nessa época me informaram que a unidade tinha sido fechada por causa da covid-19, então quando eu ou os meninos precisávamos de uma consulta nós tínhamos que recorrer a UBS Fátima. Essa unidade fica distante da minha casa e algumas vezes consegui ir até lá através de aplicativos de transporte, mas quando não tinha condições pra isso fui a pé com as crianças. Essa viagem com eles levava cerca de uma hora”, disse Kelly.

De acordo com dados do DataSUS do Ministério da Saúde, 39,9% da população manauara está coberta por equipes de saúde da família, mas tanto Kelly quanto outros moradores do conjunto afirmam que a Casinha não tem estrutura física para atender a população, além de não encontrarem produtos e remédios básicos antes mesmo da pandemia.


“O local é mal administrado pelo poder público e o atendimento não é bom, mas a unidade é essencial para o conjunto e nós precisamos de melhorias. É uma calamidade chegarmos lá e não ter nenhum medicamento, produtos hospitalares e às vezes nem médico”, relata Kelly.


Com relação às crianças, uma das microrregiões atendidas pela Casinha, que contempla as ruas Araújo Lima, Eneida de Moraes, Afrânio Coutinho, Rodolfo Teófilo e Herculano de Souza, possui cerca de mil habitantes, como mostra o mapa apresentado na plataforma do Instituto Maria Cecília Vidigal. Deste número, fazem parte 97 crianças que estão no período da primeira infância e que encontram dificuldades para ter acesso aos serviços de saúde da unidade.


A pediatra Rossi Silva afirma que os primeiros anos de uma criança são fundamentais para o seu crescimento e desenvolvimento. Para ela, dificuldades como essas relatadas pelos moradores do Conjunto Amazonino Mendes 2 implicam diretamente no futuro dessas crianças.


“É importante prevenir doenças e não somente tratar. Neste período, através do acompanhamento, equipes de saúde devem orientar uma alimentação saudável, vacinas, estimulação e prevenção de acidentes. Com uma UBS fechada ou que não proporciona um atendimento adequado, essa orientação é prejudicada”.


Procurada pela Abaré, a Secretária Municipal de Saúde (Semsa) não respondeu os questionamentos feitos sobre o atendimento da UBS N37.

Essa reportagem foi produzida com o apoio da Énois Laboratório de Jornalismo, por meio do projeto Jornalismo e Território